Hilo de Penélope, E. d’ Hooghvorst (pág. 256)
Tradução: Regina de Carvalho
(…) A cabala é universal. Não há unicamente uma cabala judaica; todas as tradições implicam uma cabala. Assim é como existe uma cabala pitagórica, uma cabala grega, uma cabala latina, uma cabala cristã possuída por alguns cristãos.
A cabala diferencia-se segundo as tradições religiosas daqueles que a possuem. Por isso, devemos falar da cabala judaica quando nos referimos aos judeus.
A palavra cabala provém de uma forma intensiva do verbo קבל, que significa ‘receber’. É exatamente o sentido da palavra ‘tradição’, do latim tradere, ‘transmitir de mão em mão’. A cabala é a transmissão de algo. Os cabalistas judaicos são aqueles que receberam a cabala. A partir deste momento, fazem parte da assembleia cabalista e se denominam mequbalim (מקבלים).
Os doutores da cabala citam com frequência, para definir o que receberam, um fragmento da Michnah, isto é, do ensino dos rabinos na época do segundo templo, que é a parte mais antiga do Talmud. Dito texto diz o seguinte:
Moisés recebeu a Torah do Sinai. Depois, a transmitiu a Josué, e Josué aos Anciãos; os Anciãos aos Profetas, e os Profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembleia.
(…) Efetivamente, o texto não diz que Moisés recebeu a Torah sobre ou no Sinai, mas sim que a recebeu do Sinai. Qual é, então, esta montanha que fez esse dom? Encontramos duas etimologias possíveis para a palavra Sinai (סִינַי): ‘sarça de espinhos’ e ‘barro’. Assim, Moisés teria recebido a Torah de um barro[1].
(…) Torah (תּוֹרָה) procede da palavra hebraica יָרָה, que significa ‘regar’. Daí outro significado, ‘ensinamento’. (pág. 257
Assim, Moisés teria recebido de um barro, ou em seu contato, o dom da Torah. Este último sentido alude, como se verá, aos mistérios da quymica cabalística, já que não há cabala sem quymica, nem quymica sem cabala.
As perspectivas do hermetismo nos ajudarão, quem sabe, a entender melhor do que se trata realmente.
A expressão «Refaz o barro e coze-o» refere-se a um ensinamento muito antigo a respeito do barro «que não molha as mãos», primeira matéria daquela a que os alquimistas chamaram sua Pedra.» (p. 317 de “Refaz o barro e coze-o”)
[1] Veja-se A Mensagem Reencontrada XV, 68-68’.»