A HERMENÊUTICA

Pere Sánchez Ferré

A palavra ‘hermenêutica’ provém de Hermes, o deus da palavra e o que põe em relação os homens com os deuses. E por tanto, também é o deus da correta compreensão e interpretação das palavras e dos textos. Hermeneia (Ἕρμηνεία) significa ‘interpretar’. É uma ciência tradicional de origem divina que é dada por Deus a certas pessoas abençoadas e conhecedoras da realidade divina. E elas são as únicas que podem nos revelar o sentido profundo das Escrituras e dos textos inspirados, pois conhecem os mistérios da regeneração do ser humano por experiência e não por erudição vulgar ou intelectual.

Mas a hermenêutica é muito mais do que a interpretação das Escrituras e dos textos em geral, pois é ela a que forma e cria uma imagem do ser humano, do mundo e do Universo. Ela está no fundamento das civilizações, pois ao oferecer uma interpretação determinada da realidade, constrói os paradigmas, e os marcos de valores de uma civilização. Por exemplo: uma interpretação do Corão produziu a cultura espiritual sunita; outra, o shiíta. Também no cristianismo, a Reforma Protestante do século XV criou uma espiritualidade diferente à católica, e essa diferença produziu uma sociedade e uma cultura bem distanciada do catolicismo romano. O capitalismo não é obra do mundo católico, senão do chamado protestantismo, que triunfou no centro e no norte da Europa.

Conhecer é sempre interpretar; assim, o conhecimento que temos da realidade é fruto de uma interpretação dessa realidade; é o mesmo a respeito do homem.

Por tanto, se não somos conhecedores, para descobrir o significado radical, verdadeiro das Escrituras devemos nos basear nos comentários que fizeram e fazem os sábios e os santos, os profetas, e não nos que são feitos pelos eruditos e especialistas, ainda que sejam muito “esotéricos”. Emmanuel d’Hooghvorst dizia que os ignorantes parece que falam e nos explicam a realidade divina, a do outro mundo, mas estão falando deste, o nosso, pois é o único que conhecem. Contrariamente, os conhecedores parece que falam deste mundo, mas estão falando do outro, pois conhecem os dois.  

E a respeito da interpretação das Escrituras e dos textos herméticos e cabalísticos, pode-se dizer que a hermenêutica fixa as bases e as regras da interpretação. E a exegese é a aplicação destas regras em cada caso concreto. E devemos segui-las se queremos encontrar o significado profundo dos textos e de nós mesmos, pois são dois aspectos de um único mistério: o do Deus que está em todo ser humano, e o do Verbo encarnado que inspira todas as Escrituras.

Diz o Evangelho apócrifo de Tomé (1, 2):

«Estas são as palavras secretas que pronunciou Jesus o Vivente e que Dídimo Judas Tomé consignou por escrito. Quem ache a interpretação (έρμηνεία) destas palavras não provará a morte.» 

EXEMPLO DE HERMENÊUTICA E EXEGESE

A hermenêutica tradicional ensina que o poço é a mulher, pois quando ela é fecundada, leva a vida nova no seu ventre; igualmente, o poço contém águas vivas (ver em João 7, 37).

A partir desta chave hermenêutica, podemos fazer uma exegese da passagem do livro de Gênesis 29, 7-11. Vamos ao essencial do relato: Jacó vai ao poço e Raquel também está ali (porque ela o poço). Mas o poço está tampado com uma pedra que ela não pode afastar. Jacó, imagem aqui da Força do Céu, retira a pedra e os animais podem beber. Nós também temos um poço tampado, e precisamos da ajuda de Céu para abri-lo e assim chegar até as águas vivas que ele contém, e que no Novo Testamento é Cristo.

Pode-se encontrar, sob outras imagens e aspectos, o mesmo ensinamento na Mensagem Reencontrada XV, 7’; X, 16’; XII, 12’, XXX, 11-14,  passim.

Ver também Gênesis 24, 14-21, onde é Rebeca a que dá a água do poço.

Nas páginas seguintes, publicaremos textos autênticos da Tradição, obras dos grandes mestres do saber, muitas vezes desconhecidos por nossos contemporâneos, neste país, por jamais haverem sido editados em nossa língua.