Um Relato Ocidental


Oriente e Ocidente na tradição hermética

Pere Sánchez

Tradução do espanhol: Fábio Malavoglia

Desde a Antiguidade o Oriente fascinou o mundo ocidental, particularmente as elites espirituais, que viram nos sábios taoistas e nos brâmanes da Índia o modelo do homem sábio, possuidores de uma sabedoria superior à dos gregos e romanos. Desde que Alexandre alcançou a Índia o prestígio daquela longínqua e pouco conhecida sabedoria cativou a muitos filósofos gregos, assim como à espiritualidade romana. Tal prestígio não diminuiu com o hermetismo cristão, pois não poucos alquimistas europeus deixaram constatação disso em suas obras.

A espiritualidade esotérica contemporânea seguiu outorgando ao Oriente uma certa superioridade em relação ao Ocidente, tanto por sua antiguidade como pela riqueza e profundidade de suas doutrinas. Inclusive parece a muitos que os termos e conceitos espirituais e religiosos próprios da língua sânscrita são superiores aos do grego, do hebreu ou do latim, pois essa antiga língua, anterior às nossas, conta com um vocabulário mais extenso e sutil e dispõe de vocábulos que descrevem realidades espirituais impossíveis de traduzir em nossas línguas.

De fato, não é fácil penetrar o sentido mais profundo da espiritualidade ocidental, como tampouco o é conhecer por completo a muito plural religião hindu sem poder aceder diretamente às fontes originais, escritas e orais. Contudo, certos autores ocidentais como Ananda Coomara  swamy (de origem hindu) são capazes de colocar a nosso alcance os elementos básicos que mostram a identidade profunda entre a espiritualidade oriental e a ocidental, pois ambas procedem de uma única raiz.

Assim, as religiões egípcia, grega e cristã afirmam que um Deus nos habita (a alma imortal, a centelha divina). E a mesma afirmação encontramos no hinduísmo: “Os deuses entraram em um homem e fizeram de um mortal sua morada[1].

Constatamos igualmente que os mistérios da regeneração humana são descritos de forma muito similar entre essas religiões. O citado autor nos mostra que, tanto em sânscrito como em grego, ‘morrer” e “ser iniciado” compartilham a mesma raiz etimológica. Que a união do deus e da deusa (de Shiva e Shakti, entre outros nomes) é a mesma hierogamia da qual falam os textos da alquimia ocidental e nossos textos revelados, se são explicados à luz do hermetismo ou da cabala tradicional. Que, graças a um sacrifício, com claras analogias com o ritual da missa católica (chamado “sacrifício da missa”), a semente divina do favorecido pelo Deus nascerá novamente da “matriz divina” e pode dizer-se que “em verdade, ainda não nasceu quem não oferece o sacrifício”. Os textos que este autor cita – todos antigos e tradicionais – afirmam que “o sacrificador entrega às chamas a oferenda do que é seu e do que ele mesmo é; esvaziado assim de si mesmo, converte-se num Deus[2].

Outra analogia entre ambas as espiritualidades é que, para ser regenerado, o homem deve vencer a seu próprio dragão, o inimigo que está nele, pois quando este for purificado, transformado e vencido, passará de ser um veneno para converter-se na medicina regeneradora, que corresponde ao verdadeiro Soma da religião hindu. Esse mesmo dragão o encontramos nos textos alquímicos do Ocidente, e também na sábia lenda de São Jorge, o cavaleiro do corcel branco que vence o dragão e assim resgata a donzela que este guardava em si mesmo. Dizem os textos hindus que “o Soma era o Dragão”.

Esta experiência, de raiz corpórea, conduz à união, ali “onde o Céu e a Terra se abraçam […] reina dali em diante a unanimidade. […] o Si reencontrou sua condição primordial, “a de um homem e uma mulher estreitamente abraçados”[3].

Temos aqui um hinduísmo original, de raiz hermética, que postula a regeneração completa do ser humano neste mundo, que ultrapassa a realização espiritual (o solve, só em espírito) para centrar-se na realização corporal, a glorificação de Deus no homem, que adquire assim o corpo de luz (o coagula). Entretanto, a espiritualidade oriental que chegou ao Ocidente desde o século XIX (particularmente o budismo) não costuma ter essa perspectiva, senão que representa a versão mais mística. O próprio Coomaraswamy assim o denuncia nesta obra, em especial em relação ao budismo:

Cabe pensar que o budismo pode ter sido admirado sobretudo por aquilo que não é. Um especialista moderno fez a seguinte observação: ‘O budismo, na sua pureza primitiva, ignorou a existência de Deus; negou a existência da alma; foi menos uma religião do que um código de ética’. Percebe-se aí um apelo ao racionalismo, de um lado, e ao sentimentalismo, pelo outro. Desgraçadamente estas três proposições são falsas, ao menos no sentido em que são corriqueiramente entendidas. É para outro budismo que se dirige nossa simpatia e ao qual podemos dar nossa adesão; e é ao budismo dos textos tal como são”[4].

Além do mais a versão do budismo que chegou até nós – com algumas exceções – é a que nos propõe a reencarnação como método de evolução espiritual e, finalmente, uma liberação que consiste na dissolução no Mar Universal ou Grande Todo, uma doutrina de dissolução final e não de coagulação, ou seja, de encarnação. Estes sistemas põem todo o acento em métodos nos quais o discípulo é dirigido por seu guru, que o guia e instrui sobre as doutrinas e técnicas que o levarão à iluminação interior e à liberação, porém nas quais não se postula a existência do Deus transcendente nem se afirma que o ser humano somente pode ser libertado graças à intervenção direta de Deus.  Quando um homem – por meio de uma iniciação – desperta os poderes interiores em outro homem não escapamos do plano meramente humano.

Por paradoxal que pareça, o budismo que foi avalizado no Ocidente resulta ser uma religião sem um Deus criador, o que favoreceu que em nossas latitudes tenha um êxito considerável, sobretudo na Europa laica (porém também nas Américas), em grande parte indiferente ou inimiga da religião, pois assim as pessoas ateias também podem ter seu sistema espiritual de libertação. É uma espiritualidade feita exatamente à sua medida.

É quanto menos curioso esse budismo para ocidentais que dá a maior importância às técnicas ascéticas, ao guia ou mestre, e à reencarnação, como se esta fosse o desejável, quando todas as tradições autênticas predicam que a salvação do homem consiste – como afirma também o budismo original – em sair da roda do Samsara (este mundo, o exílio), posto que a reencarnação supõe a condenação da alma imortal e a do espírito ou corpo astral.

A condenação da alma consiste em reencarnar-se (nós somos seu “inferno”), e o espírito astral ou corpo sutil (nosso duplo) sofrerá o ardor de ser possuído por todos os desejos desenfreados e não ter corpo para satisfazê-los. É como ter sede eternamente, porém não dispor da água nem do corpo; mas a sede não desaparece.

O budismo para ocidentais goza de um espaço próprio no atual movimento New Age, onde grande parte da espiritualidade é “a la carte”, de maneira que cada indivíduo confecciona seu próprio sistema com os elementos, escolas e técnicas que mais se adaptam às suas necessidades do momento: um pouco de cabala, outro pouco de alquimia, outro de tarot, tantrismo, astrologia, psicologia transpessoal, etc. Poderia definir-se como uma espiritualidade “de supermercado”, segundo a expressão de Frédéric Lenoir, em sua obra As metamorfoses de Deus[5].

Ocidente

O termo e o conceito de ocidente não tem boa fama no imaginário hermético, pois é uma palavra que procede do latim occidens, e este de occido, ‘cair em terra”, “morrer”.

Existe entretanto outra interpretação, estreitamente vinculada à morte do homem exterior e ao nascimento do homem novo ou Sol interior. A religião egípcia afirma que Osíris habita na zona do Poente, assim como os heróis, e é no Ocidente onde se encontra a Ilha dos Justificados (os “Justos de Voz”[6]), o equivalente à Ilha dos Bem-Aventurados na religião grega.

É a montanha de Amentha, sede dos Bem-Aventurados, situada no Ocidente, que representa também o lugar que está para além desta vida, onde sempre brilha o verdadeiro Sol, aquele que não vemos neste mundo.

Na religião egípcia, Ísis é chamada “a Dama da santa região do Ocidente”, e Osíris é denominado “Chefe dos Ocidentais”. Nos textos das Pirâmides, Anúbis (“o que abre os caminhos”) recebe o epíteto de “chefe dos Ocidentais”, e este é quem conduz o iniciado em sua subida à “montanha de Ocidente”[7].

No “Livro das Horas” (composto por invocações a diferentes deuses) se diz: “Osíris, na Montanha Ocidental”. “Osíris, o Grande Deus. Senhor do Oeste”. E também: “Ra, que governa no Oeste”; “Os Reis do Alto e do Baixo Egito que estão […] no Oeste”[8].

Outro texto egípcio, de caráter iniciático, refere-se à barca de Osíris que viaja em direção do Ocidente:

“Descendo de meu leito fúnebre [diz a alma] em direção do meu assento diante da barca de Ra, o muito esplêndido, brilhante em sua morada” […] “Aquele que navega com o deus grande, Osíris, na barca divina, até a entrada do outro mundo; aquele que trabalhou para manobrar o navio nas vias do Ocidente…”[9]

O Ocidente é, pois, para a religião egípcia, o lugar por onde passam as almas dos homens para ser divinizadas. É o lugar dos ressuscitados que acedem à vida verdadeira, eterna e pura, porém corpórea.

Encontramos o mesmo conceito sobre o Poente nas religiões da América Central, pois o deus Quetzalcóatl (termo náhuatl que significa “serpente emplumada”), o mais importante de seu panteão, é chamado o que “rege o Ocidente”, onde tem sua residência[10].

Todos sabemos que o Caminho de Santiago culmina no Ocidente europeu; ali termina a peregrinação exterior, imagem da verdadeira, que é interior, e que conduz o peregrino à sede dos imortais, pois diz a Tradição que, à imagem do Apóstolo São Tiago, “quando o sol se põe, o corpo se eleva”[11].

Outro exemplo da importância do ocidental o temos na maçonaria. Na abertura dos trabalhos de primeiro grau diz-se que estes começam ao meio dia e terminam à meia noite.

É um tanto estranho, pois poderíamos supor que os trabalhos iniciáticos deveriam começar na metade da noite e terminar quando o astro rei alcança seu zênite, o que não deixa de ser de todo correto no plano simbólico. Porém neste caso a tradição maçônica ministra outro ensinamento, sem contradizer as demais possibilidades.

O que, a meu entender, nos ensina o ritual é que a Obra de regeneração humana que Deus realiza em nós manifesta-se quando é mais forte a potência do Sol, ao meio dia, que é também quando mais ilumina: neste momento recebe-se a luz da iniciação, uma luz nascida no Oriente. E os trabalhos maçônicos terminam no poente, quando a luz do Sol vislumbrada já desapareceu completamente dentro do iniciado e parece ter-se perdido no Ocidente. Não obstante, este Sol negro ressuscitará finalmente no último grau, e mostrar-se-á resplandecente em seu corpo de luz.

Outro aspecto do ritual que assinala o Ocidente é o fato de que, na cerimônia de exaltação ao terceiro grau, o ataúde do Mestre que há de ressuscitar encontra-se orientado em direção do Ocidente, como também está o Quadro da Loja deste grau de Mestre. Os Quadros de Loja dos graus de aprendiz e de companheiro orientam-se para o Leste.

Também nos templos cristãos tradicionais cumpre-se esta orientação Oriente-Ocidente, pois se bem a palavra sagrada proceda do Oriente, e as operações que se levam a cabo no altar (transubstanciação, comunhão) situem-se igualmente no Oriente, os fiéis penetram no templo pelo Oeste e de lá recebem tudo isso: orientados em direção do Oriente (a palavra já o indica) porém situados no Ocidente.

Finalmente, o Livro de passagem da potência ao ato, obra do alquimista árabe Yâbir ibn Hayyan (Geber), contém um texto intitulado “o Sol sai pelo Oeste”[12]. Cremos que se trata, como nos citados casos anteriores, do Sol hermético que se manifesta na realidade divina dos regenerados.

Espiritualidade dissolvente e coagulante

Poderia dizer-se que a via de salvação que aspira a elevar o homem até a divindade universal para fundir-se no Grande Mar Universal, dissolve a alma na Grande Alma do Mundo (a Megále Psyque de Platão), de modo que tudo sucede como se nossa alma fosse uma gota de água divina que se introduz nas águas universais; o resultado é que não voltará a reencarnar, porém terá perdido a consciência individual, o eu profundo, ou seja, ter-se-á “dissolvido” e perdido para sempre. Porém não é este o estado que corresponde ao que os alquimistas denominam a via do solve, já que esta é uma etapa que se realiza em vida do agraciado, e que precede ao coagula.Uma precede à outra dentro de um único processo.

Vários versículos da Mensagem Reencontrada contém ensinamentos sobre este tema capital, como no seguinte: “Retornar à vida incondicionada e inconsciente, ou chegar à vida condicionada e consciente” (XXVI, 29). Aqui nos é lembrado que Deus é consciência e que a verdadeira salvação é conservar a consciência individual profunda, pois se a perdemos, deixaremos de ser para sempre. Como diz outro versículo da obra citada, “[…] Deus é a consciência da vida, e a vida é o corpo de Deus” (XII, 30’).

Quanto à tradição hermética ocidental, esta nos propõe não somente alcançar o estado místico de dissolução no Absoluto ou Grande Alma do Mundo, como “fixá-la”, isto é, encarnar a divindade em nós, o que implica na aquisição de um corpo de luz. Porém é Deus quem realiza toda esta Obra em nós; é impossível sem sua intervenção.

A Mensagem Reencontrada – que instrui magnificamente sobre estes mistérios supremos – nos mostra estas duas possibilidades que a alma tem ao baixar a este mundo e se encarnar (aqui entenda-se “enterrar-se”) num ser humano: “Voltar a ser nonato ou nascer duas vezes ou, senão, permanecer prisioneiro das alternativas das mortes e dos nascimentos nos mundos mistos” (XXVI, 14).

A primeira das possibilidades – o vimos – supõe que a alma individual se reintegra na Alma do Mundo e desaparece para sempre como tal (volta a ser “nonato”), pois perde a consciência individual. É a via da dissolução no universal. A segunda via, da qual fala este versículo, consiste em “nascer duas vezes”, isto é, receber a verdadeira iniciação, ou a benção em termos cristãos, a fim de não dissolver-se, mas de encarnar ou coagular o céu em nós, com a ajuda de Deus.

A via da dissolução hermética é, de fato, a primeira etapa de nossa regeneração completa, e pode levar à verdadeira santidade, aqui, neste mundo, pois esta dissolução é interior. Quanto à dissolução post mortem no Mar Universal, constitui uma liberação ao preço de perder a consciência individual, o verdadeiro eu. É uma forma de desaparecer para sempre jamais.

Numa carta dirigida a seu amigo Serge Lebbal, Louis Cattiaux escreve, referindo-se a um terceiro:

“O tipo de Sábio que busca Dupuy se encontra na Índia, e lhe poderíamos apresentar um, se neste inverno vier a Paris. Entretanto esta sabedoria não resolve nada em relação à salvação, à ressurreição e à vida eterna; é um estado místico que não tem nada que ver com a santa ciência de Deus, à qual muito poucos podem aproximar-se neste mundo”[13].

O hermetismo

Sem negar a primeira e necessária etapa do caminho de união com Deus, a liberação, o hermetismo postula que o objetivo final de todo ser humano não é dissolver-se no Mar Universal, mas que existe uma segunda etapa neste caminho, a qual pode chamar-se, com justiça, regeneração. Os regenerados nasceram duas vezes.

Segundo a Tradição, as almas vem a este mundo para obter um corpo de luz, imortal; é o corpo de glória do cristianismo, é o Osíris restaurado e unido a sua esposa Ísis. É Shiva unido a Shakti, e os dois se resolvem em um.

É a via do Coagula.

Nesta segunda operação divina – pois sempre é Deus quem realiza tudo em nós – o homem (ou seja, a alma) não se dissolve nas Grandes Águas Universais, mas a divindade celeste se encarna nele para diviniza-lo e convertê-lo num corpo de glória ou de luz. Aqui e agora, nesta vida.

Esta é a realização que predicam a alquimia, todas as escolas iniciáticas tradicionais e todas as religiões originais de forma mais ou menos velada. A egípcia, como a grega e o cristianismo, mostrou abertamente este mistério: Deus encarna-se no homem e cumpre-se assim o desígnio maior da epopeia humana: a humanização de Deus e a divinização do homem. Ambos os processos vão unidos e conformarão uma só realidade. A partir deste momento Deus é Um.

Também o judaísmo e certo Islam o ensinam, porém de forma muito mais velada.

A Mensagem Reencontrada expressa-o breve e claramente:

A queda do homem tem uma finalidade divinamente elevada, que é a aquisição de um corpo baixo e a sua glorificação em Deus (XXV, 49).

Não desejamos abandonar o nosso corpo para nos dissolver nos limbos do começo. Desejamos purifica-lo e consolidá-lo com a ajuda de Deus para poder habitá-lo eternamente (XXIX, 44).

Nossa busca consiste em descobrir a vida, nossa meta é fundir-nos nela e fixá-la em nós. Todo o resto é um sonho sem importância (X, 33).

A purificação (resultado do solve) é imprescindível, porém deter-se neste estado é estancar-se numa realização em espírito.

Também é certo que há dois caminhos para a purificação: o do ascetismo e o da Providência, e aqui a fronteira é clara: quem me purificou? Eu mesmo com a ajuda de técnicas e de um mestre ou guru, ou foi Deus quem fez tudo em mim?

Em relação ao primeiro dos casos, Emmanuel d’Hooghvorst dizia que estes ascetas eram como uma flor separada da planta: jamais dará frutos. Portanto, não é a realização completa. Por essa razão a Mensagem Reencontrada ensina o seguinte: “Há muitas vias que conduzem à santidade, mas somente uma conduz à sabedoria” (IX, 51’).

Portanto, se é Deus quem dissolve e purifica o homem, este adquire a condição e o estado da Virgem Maria, que é uma pureza interior disposta a ser fecundada pelo anjo Gabriel e que dará seu fruto; o Filho de Deus.

Esta sim é a via do coagula, que culmina na transmissão, a qual tampouco pode ser realizada sem a intervenção de Deus. Dado este caso, o iniciado que receba a benção poderá ser qualificado como filho de uma geração messiânica, conforme se diz em Salmos 2, 7 (fala IHVH): “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”.

Assegura-se desta maneira a presença de Deus na humanidade e a Tradição permanece viva mediante a aurea catena dos sábios amigos de Deus, a filiação messiânica aqui e agora, num ser humano. O mundo contará com um novo sábio que terá seu povo, como o tiveram os anteriores. E isto só ocorre se completa-se a obra de regeneração do homem neste mundo, daí sua importância, pois se todos aspiramos somente a salvar-nos, desaparecendo no Mar Universal, não haverá possibilidade de que um novo Filho de Deus se manifeste entre nós, e as portas do céu se fecharão. Então, como diz um antigo comentador de Homero, a vida dos homens decorrerá “estupidamente, privada de voz”[14].

A alquimia, que é a escola hermética do cristianismo, sempre postulou o solve e o coagula, a via da liberação e a via da encarnação. Digamo-lo em termos teológicos: a Virgem Maria e seu Filho, Jesus Cristo.

Em relação às duas vias que ocupam o nosso trabalho, a espiritual e a substancial ou corporal, falam-nos dela vários versículos d’A Mensagem Reencontrada. Porém queremos nos centrar em dois deles em particular, 43 e 44 do Livro XXXII, porque em sua primeira redação diziam o seguinte:

43. Os mais inteligentes e os mais avançados no estudo e no conhecimento dos mistérios de Deus somente penetram a realização espiritual.

43’. É o retorno ao estado livre, movente e incondicionado em Deus. Estes são os liberados das doutrinas orientais.

44. Alguns dentre estes obtêm o conhecimento da ciência divina e ultrapassam a realização espiritual para penetrar a realização substancial.

44’. É o acesso ao estado livre, fixo e manifestado em Deus. São os ressuscitados das doutrinas ocidentais.

E debaixo dos versículos 43 e 43’ podia ler-se:
                                                  SOLVE

E debaixo dos versículos 44 e 44’:
                                                  COAGULA[15]  

Assim, pois, a redação original – finalmente não publicada nesta forma – punha em destaque que o próprio das doutrinas orientais mais divulgadas é o solve, e o próprio das doutrinas ocidentais é o coagula. Porém ambos devem realizar-se na vida dos seres humanos.

Um axioma alquímico o resume, breve e claramente: “Dissolve-me e eu te coagularei” (o diz ele a ela, ou o deus terrestre à deusa celeste).

Com isso Louis Cattiaux afirmava que a espiritualidade oriental moderna tinha esquecido a segunda parte da obra de regeneração humana, e por essa razão insiste somente na liberação, em unir-se ou fundir-se no Nirvana (que significa “extinção”), no Mar Universal, que é – como temos dito – a via do solve enquanto dissolução final. Porém não nos fala da coagulação, da encarnação do céu no homem, da ressurreição do Deus que o habita e de sua glorificação. Porém o cristianismo sempre postulou o mistério da encarnação e da ressurreição.

Assim, o hermetismo ocidental, do mesmo modo que a religião egípcia, a grega e o cristianismo, tem como meta a coagulação, a encarnação de Deus no ser humano e sua deificação. Isto está perfeitamente representado na vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo, narrada nos Evangelhos como se fossem fatos históricos, processos de uma realidade vulgar, quando de fato é história sagrada; não se refere a uma série de acontecimentos, senão a uma verdade revelada, ou seja, “tornada a velar” mediante uma narração apresentada quase em forma de crônica, a fim de não profanar o mistério supremo. Assim, cada leitor extrairá do texto o alimento que lhe é apropriado em cada momento, sem perder nunca a possibilidade de descobrir a luz oculta na Escritura.

Entretanto, acontece que também no Ocidente faz já muito tempo que se esqueceu o mistério da ressurreição de Deus no homem, da via do coagula, pois ensina-se e compreende-se mal, ou seja, de forma literal e histórica, ou teologicamente abstrata. Este esquecimento é geral, talvez devido à lei deste mundo, que se inclina naturalmente para uma via mística que conduz à dissolução nas águas universais. Por essa razão é tão importante manter a recordação e o desejo da via da encarnação de Deus no ser humano, a via do coagula, como o diz este outro versículo da Mensagem Reencontrada:

As religiões estabelecidas pelos homens nos propõem a desencarnação na eternidade dos limbos.

A religião revelada de Deus nos propõe a encarnação na eternidade da vida manifestada (XXV, 6 e 6’).

Por outro lado, não creio que o autor d’A Mensagem Reencontrada compusesse estes versículos para denunciar ou desacreditar a espiritualidade do Oriente, senão mais para advertir e instruir, para que a humanidade contemporânea recobrasse a memória do que é essencial, para que recorde e conheça que a meta final dos seres humanos não é dissolver-se e perder a consciência para sempre, senão despertá-la completamente nesta vida e unir-se a Deus pela eternidade.

Outros versículos d’A Mensagem Reencontrada nos falam disso:

Nosso objetivo não é deixar de ser pela dissolução na origem, nem nos contentarmos com agonizar sem fim na impermanência da criação misturada, mas principalmente nos tornar eternos na estabilidade que nada pode corroer. Isso está claro! (XXVI,17)

Vencer ou morrer, esta é a alternativa que Deus nos propõe. O céu saúda com os seus cantos os renunciados-liberados, mas ele adora os vencedores-encarnados. (XXVI, 14’)

Estes ensinamentos de ouro que nos revela A Mensagem Reencontrada nos advertem dos perigos de buscar unicamente uma liberação que supõe a perda de nossa consciência individual para sempre, pois o que devemos pedir a Deus é nossa regeneração completa, que consiste não somente em liberar-se da roda infernal das reencarnações, mas a aquisição de um corpo de luz a fim de ser unidos à Unidade do Único. Ou seja, a encarnação de Deus no homem e não sua dissolução nos limbos do esquecimento. Em termos alquímicos seria a unidade indissolúvel do espírito, da alma e do corpo.

É certo que os ressuscitados, Filhos de Deus, deverão renunciar à imortalidade particular, porém será para penetrar no repouso divino e ser Deus com Deus, como o ensina – também – A Mensagem Reencontrada (VII, 25′):

Quando tivermos conquistado a imortalidade particular, deveremos renunciar a ela para penetrar no repouso de Deus.

E segundo o que ensina a citada obra (é curioso que ninguém fale disso), em nosso caminho chegaremos a um estado em que poderemos escolher se queremos dissolver-nos no Grande Mar Universal ou fixar-nos na pedra viva e conseguir assim o corpo de luz imortal:

Eis-nos caídos no barro, mas podemos escolher entre voltar para a água livre ou fixar-nos na pedra preciosa. (XXVI, 40)

Eis aqui uma carta de Louis Cattiaux a um amigo na qual põe em relevo e explica a diferença entre mística (dissolução) e hermetismo (coagulação):

“Tens razão ao não deixar-te extraviar pela interpretação mística das verdades herméticas. Estarás descobrindo cada vez mais, e também com crescente surpresa, que os verdadeiros hermetistas são os únicos materialistas dignos deste nome, pois a seu lado os pseudo-materialistas deste mundo parecem idealistas desencarnados. O mistério de Deus encarnado é tão enorme que muito poucos podem ter acesso a ele sem perigo de morte. Pode-se dizer que um hermetista é absolutamente o contrário de um sonhador, pois este sonha a Deus, e aquele o toca! Existe uma extraordinária vigilância ao redor dos mistérios da realidade; não obstante, a via mística deve acompanhar a via hermética para que a realidade se veja realizada em nós. Quase todos que conheço se desviam para a interpretação mística, outros se afundam na crisopeia[16] e muito poucos sabem unir estes pontos de vista opostos. Em suma, a via mística e a via hermética se complementam porém não se mesclam; entretanto o ensinamento místico e o hermético sempre aparecem mesclados nos grandes textos dos sábios, pois vão ao par”[17].

Não duvido de que existe uma tradição oriental primigênia, não desvalorizada, que mantém e postula a meta da encarnação, da ressurreição e da glorificação de Deus no homem[18], porém a modernidade também influenciou no Oriente, e a espiritualidade que chegou a nós desses confins, em geral nem sequer contempla essa possibilidade, pois seus representantes não falam dela, como assinalava Louis Cattiaux, que tinha tido contatos com alguns gurus ou mestres orientais. Parece como se isso tivesse sido esquecido há já um longo período, o que denota algo mais grave: que no Oriente faz muito tempo que não há verdadeiros sábios, profetas Filhos de Deus.

O problema, porém, é universal, pois na atualidade vivemos em uma época de dissolução geral, e não só espiritual, ainda que esta dissolução vista-se de materialismo vulgar, imediatista e destruidor do homem e do mundo, pois sua não dissimulada meta é acabar com a vida natural, a humana e a do planeta: a mais absoluta dissolução.

Diz-se que o hermetismo é um verdadeiro materialismo, porém de matéria pura. É uma ciência física, experimental, pois – como ensina Emmanuel d’Hooghvorst – não existe verdadeiro conhecimento sem o testemunho dos sentidos, ainda que em nosso estado caído estes tenham sido animalizados. Não obstante, sua raiz, que é o verdadeiro Sentido humano interior, permanece essencialmente pura e potencialmente ativa. Porém se dizemos que a ciência de Deus é de caráter físico ficamos abaixo da realidade divina; talvez deveria ser chamada ciência “hiperfísica”. O mistério da ressurreição pertence a este âmbito, o da realidade hiperfísica, de natureza sagrada.

Este Sentido é uma força vital que pode ser pura ou impura, e Santo Tomás escreveu que quanto mais puro é um corpo, mais prazer obtém. Assim, pois, o corpo de luz ou de glória é o corpo imortal capaz de experimentar o maior amor, eternamente.

Em relação ao ego, todos os sistemas orientais insistem na necessidade de anular o ego, porém para consegui-lo não devemos abolir o corpo, o sentido e sua força geradora, pois sem esta não é possível que Deus realize em nós nossa regeneração. Esta força é o suporte da geração caída, porém convertida e purificada, o é da geração messiânica.

As experiências corporais são fixas, fixam-se, realizam-se e se experimentam através dos sentidos corporais, enquanto que a especulação intelectual é volátil, como também o é o êxtase ou os estados de transe, pois uma vez terminada a experiência, a pessoa retorna ao mesmo estado em que se encontrava antes deles. Assim o atestam vários místicos cristãos. Ou seja, não houve mudanças físicas irreversíveis em seu núcleo divino. Pode ser uma vivência forte e transformante espiritualmente, pois é como se Deus te tocasse com seu dedo, porém – segundo creio – não conduz necessariamente à regeneração, ainda que possa talvez levar sim a uma forma de santidade nada desdenhável, certamente.

Quanto a este tipo de experiências, que constituem o acervo espiritual da religião católica, nem sempre é fácil determinar os estados de verdadeira santidade, posto que certas práticas, levadas a graus extremos, produzem estados e dons espirituais que podem ser surpreendentes, porém em última instância é Deus quem faz o homem santo. Como dizia Emmanuel d’Hooghvorst, “santo é aquele que foi santificado pelo Espírito Santo”.

Entretanto, como Deus sabe mais, sempre é aconselhável outorgar o benefício da dúvida a quem foi favorecido por essas aproximações à divindade.

Alguns de nossos santos cristão nos deixaram o testemunho escrito de suas experiências, apesar de que, como diz a sentença hermética, “não há amor sem pudor”. Pode ser de proveito ler este fragmento de São Boaventura, a fim de que o leitor descubra ou intua se o santo fala de uma experiência que leva só à dissolução, ou também à coagulação:

[…] o Verbo veio a mim muitas vezes, embora não seja cordura o dizê-lo. Mas com ter entrado muitas vezes em mim, nunca senti quando entrava. Sentia-o estar na minha alma, lembro-me que o tive comigo, e alguma vezes pude suspeitar que entraria, mas nunca o senti nem entrar nem sair. […]

Por onde, pois, entrou? Ou, porventura, não entrou, porque não veio de fora, que não é coisa alguma das que estão por fora. Mas nem tampouco veio de dentro de mim, porque é bom, e eu sei que em mim não há coisa que seja boa. Subi, pois, acima de mim, e achei que este Verbo ainda estava mais alto. Desci abaixo de mim, inquisidor curioso, e também achei que ainda estava mais baixo. Se olhei o de fora, o vi ainda mais fora que ele. Se me voltei para dentro, achei-o dentro também. […]

Somente, como disse, de que o coração me fervia entendi sua presença. De que fugiam os vícios, e os afetos carnais se detinham conheci a força de seu poder. […] Mas porque todas estas coisas, logo que o Verbo se aparta, como quando tiram o fogo da panela que ferve, começam com uma certa fraqueza a cair-se torpes e frias, e por aqui, como por um sinal, conhecia eu sua partida, e força é que minha alma fique triste e o esteja até que outra vez volte e torne, como soia, a acalentar-se meu coração em mim mesmo, e conheça eu assim seu retorno[19].


[1] Ananda K. Coomaraswamy, Hinduismo y Budismo, Paidós Orientalia, Barcelona, 1997, pg. 26.

[2] Satapantha Brahmana I, 6, 4, 21 e III, 8, 1, 2, referidos na op. cit., pp. 49 e 56

[3] Bhagavad-Gita VI, 7, referido na op. Cit., pp. 56 e 58

[4] Ananda K. Coomaraswamy, op. cit., pp 80-81.

[5] Frédéric Lenoir, As metamorfoses de Deus, Alianza Editorial, Madrid, 2005. Este mundo alternativo confunde o espiritual com o mental e a psicologia, como já denunciou René Guénon em seu tempo. Veja-se R, Guénon, O reino da quantidade e os sinais do tempo, Ed. Ayuso, Madrid, 1976, caps. XXXIV e XXXV: “Os perigos da psicanálise”; “A confusão do psíquico com o espiritual”.

[6] Dictionnaire de Mythologie et de Symbolique Égyptienne, Dervy, 1996, vozes Occident e Justifié.

[7] S. Mayassis, Mystères et initiations de l’Égypte Ancienne, B.A.O.A., Atenas, 1957, pp. 59,144, 274, 341, 540-541, passim.    

[8] Libro de las Horas, 8,7; 11,2; 16, 8 e 13, 22 respectivamente, tradução e apresentação de Francisco López e Rosa Thode, www.egiptologia.org

[9] S. Mayassis, Le Livre des Morts de l’Égypte Ancienne est un Livre d’Initiation, B.A.O.A., Atenas, 1955, p. 266.           

[10] Salvador Mateos Higuera, Enciclopedia Gráfica del México Antiguo, Secretaria de Hacienda y Crédito Público, México, 1993, p. 181 (tomo a referência da internet). A serpente está no homem, e o céu, simbolizado pelas plumas, encarna-se nele.

[11] Sol declinare coepisset […] levatum est sanctissimum corpus (‘quando o sol começa a declinar, eleva-se o corpo santíssimo’): ms. Gembloux, citado por Antonio Balboa Salgado, A Raiña Lupa. As orixes pagás de Santiago, Ed. Lóstrego, Santiago de Compostela, 2005, p.29. Este fragmento tem provavelmente um sentido operativo, ou seja, alquímico.

[12] Citado por Pierre Lory, Alquimia y mística em el Islam, Mandala Ediciones, 2005, p.176

[13] “Cartas a Serge Lebbal”, em La Puerta. Correspondência de Louis Cattiaux, nº 74, 2018, p.102.

[14] Heráclito, Alegorias de Homero, 76, 1-5, em Biblioteca Clásica Gredos, vol. 125, Madri, 1989, pp. 147-148.

[15] A redação final deste dois versículos é a seguinte:
43. Os mais inteligentes e os mais avançados no estudo e no conhecimento dos mistérios de Deus somente penetram a realização espiritual.
43′. É o retorno ao estado livre, movente e incondicionado em Deus. Estes são os liberados de Deus.
44. Alguns dentre estes obtêm o conhecimento da ciência divina e ultrapassam a realização espiritual para penetrar a realização substancial.
44′. É o acesso ao estado livre, fixo e manifestado em Deus. São os ressuscitados de Deus.

[16] Crisopeia, palavra de origem grega, seria a arte de transmutar os metais em ouro (NdT.)

[17] Florilegio Epistolar, “O hermetismo e a mística”, Arola Editors, Tarragona, 1999, carta 76, p.67

[18] Vejam-se os artigos de Catherine de Laveleye sobre o taoísmo: “Aperçu sur le Taoïsme”, nos números 21 e 22 da revista Miroir d’Isis, pp. 107-122 e 169-175, respectivamente.

[19] Reproduzido por Frei Luís de Leon, De Los Nombres de Cristo, Ed. Cátedra, Madrid, 1986, pp. 619-620. Talvez nosso poeta (N.T.: Frei Luís de Leon era poeta) fale de sua própria experiência pela boca de outro.